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ESTADAO | Jornal Do Carro | O brasileiro que rodou o mundo e trabalha com customização de motos na Itália

Olhando a moto, não dá para saber a marca. Muito menos se ela é boa ou não de dirigir. Mas uma coisa é certa: goste ou não de motocicletas, é impossível ficar indiferente diante da máquina customizada pela Given, uma pequena empresa de design localizada em Milão, na Itália. É lá que o brasileiro Luiz “Careca” Mingione está trabalhando, dando forma física aos projetos do designer italiano Donato Cannatello.

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Por baixo das novas formas da moto, há uma CR&S Duu. A CR&S era uma fabricante artesanal que nasceu em 1992 em Milão. A sigla representa “café racers e superbikes”. Duu significa dois em dialeto milanês, e designa o motor de 2.000 cm3. O modelo foi lançado no Salão de Moto de Milão (Eicma) em 2009. De acordo com Mingione, cada unidade foi vendida por 40 mil euros.

Função é dar formas aos projetos

A função de Mingione é moldar em fibra de vidro e alumínio, e fazer impressões em 3D, para dar formas às ideias criadas por Cannatello. O designer chegou a trabalhar na própria CR&S e na Aprilia, entre outras fabricantes de moto.

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Como foram produzidas apenas 100 unidades do modelo e atualmente a marca não está operando, qualquer moto da CR&S já seria suficientemente exclusiva. Porém, sempre há clientes que querem ainda mais exclusividade. É o caso do dono dessa unidade. Mingione informa que ela foi feita para um holandês que tem restaurantes na Itália e na Nova Zelândia. A customização custou 24 mil euros (cerca de R$ 110 mil). O preço inclui projeto, construção de protótipos, peças e mão de obra. O trabalho levou seis meses.

Ele trabalhou também em uma CR&S Vun (um, no dialeto milanês), o segundo modelo da marca italiana. Nesse caso, o motor tem 650 cm3.

Depois que a moto fica pronta, o brasileiro anda com ela para ver se tudo está em ordem. Mingione é um experiente piloto, que em 2002 venceu o Paris-Dakar, na categoria até 250 cm3.

Agora, ele diz que está começando a trabalhar em um novo projeto, de uma Suzuki SV 650, fabricada em 1999. “A moto não vale mil euros (R$ 4.500), mas a dona vai gastar cerca de 6 mil euros (R$ 27 mil) para fazer algo exclusivo”, diz.

Ele diz que o primeiro passo é desmontar inteiramente a moto a ser customizada. Depois, o quadro é repintado e vai recebendo as novas peças, num processo que leva cerca de quatro meses, dependendo da complexidade.

Mingione trabalha por projeto. Ele está na Given há um ano, e pretende continuar lá até o final do ano que vem.

Ele diz que decidiu tentar a vida em Milão porque os pais de sua esposa tinham restaurante na cidade. Antes disso, porém, Mingione passou por vários países.

Moldagem com clay aprendida na Honda ajudou

Ele entrou na Honda do Brasil em 1993. Entre 98 e 99, após o lançamento da Honda Biz, no qual trabalhou no primeiro protótipo, fez um estágio na matriz da empresa, no Japão. Lá, aprendeu a construir protótipos com clay, uma espécie de argila industrial, empregada na construção de modelos.

Após sair da marca japonesa, em 2006, passou um mês na China, a convite de um empresário. O objetivo era selecionar possíveis marcas de motos que poderiam ser vendidas no Brasil.

Desse périplo por “mais de 30 empresas”, uma chegou a vir para o País, a Iros, que fechou em 2013.

Na sequência, Mingione foi para a Ford na Turquia, onde ficou de 2015 a 2016, trabalhando com clay no desenvolvimento de interior de caminhões.

Em 2017, voltou para a China. Foi como consultor técnico da UM (United Motors), empresa colombiana com sede nos Estados Unidos, que pretendia produzir no país uma motocicleta. Depois disso, rumou para Milão, onde pretende ficar até o fim do ano que vem.

“É preciso varrer muito chão de oficina”

A quem sonha em seguir caminho semelhante, Mingione alerta para as dificuldades: “Indico para quem gosta de motocicleta e quer aprender coisas novas, tendência, tecnologia de materiais e desenvolvimento”, diz. “Mas para um iniciante não é fácil. Tem que ralar e varrer muito chão de oficina.”

Tudo isso, claro, fora as questões legais (visto de trabalho) e de comunicação. O idioma pode ser um entrave, dependendo do país escolhido. Quanto à remuneração, Mingione estima que na Itália um iniciante vai receber entre 600 e 800 euros por mês (de R$ 2.700 a R$ 3.600).